"Nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível."
Roland Barthes

23 de dezembro de 2010

João e Maria

Com a cabeça no céu

da boca dela

ele via estrelas.

17 de dezembro de 2010

forjando amores a fim de orgasmos sinceros.



"abre o teu coração ou eu arrombo a janela."
- oh, por favor!



30 de novembro de 2010

A Publicidade é um cadáver que nos sorri

       A publicidade oferece aos nossos desejos um universo subliminar que insinua que a juventude, a saúde, a virilidade, bem como a feminilidade, dependem daquilo que compramos. Um mundo todo sorrisos em que diálogos amáveis e muito blablablá subentendem estas mensagens dissimuladas: seus cabelos caem porque você não está usando esta loção milagrosa de “extratos naturais”; suas gengivas estão sangrando e não são “de concreto” porque você está comprando o dentifrício errado; você não arranjará um novo emprego se não fizer uso deste barbeador para vencedores e deste computador portátil; você está ficando feio(a) e vivendo à margem da “verdadeira vida”, da “vida cheia de vida”, da “vida autêntica”, da “vida total” porque ainda não adquiriu este queijo magro sem sal ou esta refrescante soda gasosa.
      A publicidade cobre atualmente cada esquina de rua, as praças históricas, os jardins públicos, os pontos de ônibus, o metrô… Interrompe os filmes na televisão, invade o rádio, as revistas, as praias, os esportes, AS ROUPAS, acha-se impressa até nas solas dos nossos sapato, ocupa todo o nosso universo, todo o planeta! É impossível esboçar um passo, ligar o rádio, abrir a correspondência, ler o jornal sem dar de cara com a mamãe publicidade. Ela está por toda a parte. É o irmãozão, sempre sorridente!
       Acho apavorante que todo esse imenso espaço de expressão, de exposição e de afixação de cartazes, o maior museu vivo de arte moderna, cem mil vezes o Beaubourg e o Museu de Arte Contemporânea de Nova York reunidos, esses milhares de quilômetros quadrados de cartazes mostrados no mundo inteiro, esses painéis gigantes, esses slogans pintados, essas centenas de milhares de páginas de jornal impressas, esses milhões de horas de televisão, de mensagens radiofônicas, fiquem reservados a esse paradisíaco mundo de imagens imbecil, irreal e mentiroso. Uma comunicação sem qualquer utilidade social. Sem força. Sem impacto. Sem sentido. Sem outra mensagem que não seja a exaltação grotesca de um modo de vida acintosamente yuppie, bastante agradável e bem humorado.
     
A publicidade não vende produtos nem ideias, mas um modelo falsificado e hipnótico de felicidade, em nome de um sonho burguês inacessível.
      Os publicitários não cumprem a sua função: comunicar. Carecem de ousadia e de senso moral. Não refletem sobre o papel social, público e educativo da empresa que lhes confia um orçamento. A responsabilidade deles é imensa. Têm a incumbência de refletir sobre sobre a comunicação de uma marca, sem ficar apenas no puro marketing. Precisam impulsionar esse sistema publicitário que anda em círculos, incita a consumir cada vez mais e já não convence. A condição humana é inseparável do consumo; neste caso, por que a comunicação que o acompanha deveria ser superficial?
[Oliviero Toscani - recortes soltos do livro homônimo ao título do post]
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 O consumo, consciente - não este estereotipado, desenfreado, ao qual aludimos sempre que pensamos em consumo -, é uma prática de cidadania. Ao escolhermos tal produto ou rejeitarmos outro, de caso pensado, estamos exercendo nosso poder civil; estamos expondo nossos valores moral, social e mesmo político. Uma etiqueta no bolso da sua calça jeans não o torna uma pessoa melhor - exceto dentro de um grupo de seres supérfluos - . Uma marca estampada, em letras garrafais, no peito do seu agasalho só lhe garante pertencimento a um ciclo de amigos com senso crítico duvidoso, para dizer o mínimo. E você pode até amar, idolatrar, ou apenas usar para se sentir aceito, a GAP, mas é bom que você não ignore como e onde seus produtos são desumanamente fabricados. É indispensável que você saiba quais mãos de terceiro mundo produzem seus sensacionais tênis (e demais acessórios e roupas) da Nike. E eu realmente espero que você tenha ciência de que, para essas marcas, você não passa de um outdoor ambulante - que, não obstante, paga (caro) por isso.
       Enfim, essa é a hora em que eu me dou um tapa e digo a mim mesma "vamos, Camila, não vá cagar nas calças de novo! Nada de trocar de curso mais uma vez, porra! Melhor que isso: empenhe-se em fazer diferente."
      E, bem, se pensando (e vivendo) desse jeito, me rotulam/rotularem (urgh, como eu odeio esse treco) de "publicitária pé-sujo", que assim o seja! Antes isso a ser um "publicitário yuppie" alienado.   

24 de novembro de 2010

Valentina

Valentina era um segredo ambulante, a personificação do mistério. Sua vida era um baú trancafiado a mais de sete chaves e há quase 19 anos. Morreu na primavera, numa manhã ensolarada e de brisa mansa, antes que pudesse acordar. Ela era mesmo um mistério ambulante: nem a causa de sua morte conseguiram desvendar.

12 de novembro de 2010

não é que eu seja, assim, indiferente
apenas nego-me a estilhaçar meu coração por algo morno.

9 de novembro de 2010

lençóis de ontem

a cama chama
ela clama
calma
já sem os lençóis
onde secaram
as lágrimas de ontem
e onde
hospedam-se ainda teus resquícios
que eu faço questão
de deixá-los lá
nos lençóis
de ontem
pois sei que não são eles
onipresentes
e estando eles lá
nos lençóis 
aqui fico eu
sossegada
e durmo bem
nos lençóis de hoje

27 de outubro de 2010

o mundo continua inodoro

e eu estou num momento extremamente Greta Garbo. preciso de uma dose.. não, não.. duas doses de adrenalina, acompanhadas de uma porção de friozinho na barriga. o que acontece é que nada nesse mundinho tem me instigado mais do que meus próprios pensamentos. e é horrível quando nossos anseios parecem impraticáveis; quando os desejos são profundos, mas de alguma forma se sente que não é agora nem aqui. sou o próprio paradoxo de intensidade e indiferença.

eu nunca quis tanto quanto hoje que o amanhã - e o depois, e o depois, e o depois... e o depois - chegue de uma vez.

25 de outubro de 2010

360º

após o tempo das lamuriações
vem a (malograda) bonança;
acontece ameno
passa ligeiro
ama pra dentro
sente pequeno

e depois de tudo,
o mundo continua o mesmo
eu que não me reconheço mais.

22 de outubro de 2010

É basicamente tudo o que tenho sentido...

Monochrome - Yann Tiersen 

Bem, eu posso tentar
Qualquer coisa, é o mesmo ciclo
Que leva a nada e eu estou cansado
Bem, eu perdi meu rosto
Minha dignidade, minha aparência
Tudo se foi
Eu estou cansado
Mas não se assuste
Eu arranjei um bom emprego e vou ao trabalho
Todo dia na minha velha bicicleta que você amava
Eu estou empilhando alguns livros velhos de baixo da minha cama
E eu realmente acho que não os lerei mais
Sem concentração
Somente uma bagunça branca
Em volta de mim
Você sabe eu estou tão cansado
Mas não se preocupe
Eu ainda vou a restaurantes e festas
Com alguns velhos amigos que se preocupam comigo
Me levam de volta pra casa e ficam lá
Piso monocromático, paredes monocromáticas
Somente ausência perto de mim
Nada além de silêncio ao meu redor
Apartamento monocromático, vida monocromática
Somente ausência perto de mim
Nada além de silêncio ao meu redor
De vez em quando eu procuro por um evento
Ou alguma coisa para lembrar
Mas eu realmente não tenho nada em mente
De vez em quando eu abro a janela
E ouço as pessoas andando na rua lá em baixo
Existe vida lá fora

10 de setembro de 2010

Dicotomia

Algumas pessoas
me julgam "difícil de lidar"
só porque tenho sempre
um contraponto (objeção)
guardado nas mangas.

Eu as chamaria mal-agradecidas,
já que nada mais faço
do que incitar seu raciocínio,
contudo
não gosto e não costumo
julgar as pessoas.

*sorriso sarcástico*

obs.: o que eu digo acima é puro e verdadeiro. o sarcasmo é apenas um traço insolúvel da minha personalidade.

Desabafo

Eu sei, eu sei... embora este blog seja meu, ele não diz respeito a mim (ao menos não inteiramente).. tá lá no título, é só olhar. Porém hoje vou abrir uma exceção: o que está escrito a seguir é fruto podre da confusão e tristeza que se abateram sobre mim uhn.. hoje! Eu queria simplesmente mandar tudo ao inferno, mas desta vez não consigo. Por isso vomitei aqui essa porcaria de desabafo - e que ninguém, por favor, atreva-se a tentar limpar!
É raro eu compartilhar minhas dores com alguém... portanto, vocês que prosseguirão com a leitura, já podem se considerar uns infortunados.

Bom, antes de mais nada: MERDA!

O que devo responder quando perguntarem o que foi feito do brilho que esteve presente nos meus olhos - e que parecia tão intrínseco - durante o último mês?
Como justificar as vezes em que meu sorriso não mais aflorar diante da piada boba de algum amigo?
E de que maneira tocar o costumeiro e resoluto "foda-se" aos golpes da vida, se eu agora uso, não por escolha, a máscara da incerteza, que denuncia infalivelmente minha vulnerabilidade?
Com que direito algumas pessoas me surgem de forma tão fascinante, arrancam-me suspiros e o fôlego, compartilham pedaços de nossas vidas e depois, deliberadamente, batem em retirada, levando de quebra um coração - que, aliás, eu tratei de guarda (leia-se enclausurar) com tanto cuidado e por tanto tempo -,  feito gatunos?

E essa sensação que fica, de coisa mal resolvida, mal digerida... o que eu faço com ela?


~ definitivamente, depois de tempos, estou na fossa.

Pergunta paródica à Fênix

Quanto tempo é preciso viver para poder voltar às cinzas?
"Toda forma de amor,
é uma forma errada de encarar a vida"

Fábio Hasst - Meio Bukowski


muito que concordo com isso, ultimamente.

4 de setembro de 2010

Epíteto

O rosto expressivo emoldurava harmoniosamente os belos olhos verdes. Era através deles que eu perscrutava-lhe a alma e conseguia prever cada um de seus intuitos. Eu podia sentir, empiricamente, parte de suas perturbações, fossem elas oriundas de preocupações diárias, reminiscências nostálgicas ou projeções de qualquer espécie. Daqueles olhos fulgurava uma vibração que reverberava por todo meu corpo. O verde diáfano me fascinava, a profundidade me prendia, me capturava. Era um tormento. Acima de tudo quando se encontravam fechados, pois era aí que nossos corpos iam de encontro um com o outro, como que agindo involuntários aos nossos estímulos. Então espreitávamo-nos com os olhos impetuosos da alma. E devorávamo-nos.

31 de agosto de 2010

A madrugada dissipou-se
em suspiros e gemidos deleitosos.
E agora,
enquanto colocas no papel
as rimas que tiraste dos meus quadris,
sou poema concreto.