A publicidade oferece aos nossos desejos um universo subliminar que insinua que a juventude, a saúde, a virilidade, bem como a feminilidade, dependem daquilo que compramos. Um mundo todo sorrisos em que diálogos amáveis e muito blablablá subentendem estas mensagens dissimuladas: seus cabelos caem porque você não está usando esta loção milagrosa de “extratos naturais”; suas gengivas estão sangrando e não são “de concreto” porque você está comprando o dentifrício errado; você não arranjará um novo emprego se não fizer uso deste barbeador para vencedores e deste computador portátil; você está ficando feio(a) e vivendo à margem da “verdadeira vida”, da “vida cheia de vida”, da “vida autêntica”, da “vida total” porque ainda não adquiriu este queijo magro sem sal ou esta refrescante soda gasosa.
A publicidade cobre atualmente cada esquina de rua, as praças históricas, os jardins públicos, os pontos de ônibus, o metrô… Interrompe os filmes na televisão, invade o rádio, as revistas, as praias, os esportes, AS ROUPAS, acha-se impressa até nas solas dos nossos sapato, ocupa todo o nosso universo, todo o planeta! É impossível esboçar um passo, ligar o rádio, abrir a correspondência, ler o jornal sem dar de cara com a mamãe publicidade. Ela está por toda a parte. É o irmãozão, sempre sorridente!
Acho apavorante que todo esse imenso espaço de expressão, de exposição e de afixação de cartazes, o maior museu vivo de arte moderna, cem mil vezes o Beaubourg e o Museu de Arte Contemporânea de Nova York reunidos, esses milhares de quilômetros quadrados de cartazes mostrados no mundo inteiro, esses painéis gigantes, esses slogans pintados, essas centenas de milhares de páginas de jornal impressas, esses milhões de horas de televisão, de mensagens radiofônicas, fiquem reservados a esse paradisíaco mundo de imagens imbecil, irreal e mentiroso. Uma comunicação sem qualquer utilidade social. Sem força. Sem impacto. Sem sentido. Sem outra mensagem que não seja a exaltação grotesca de um modo de vida acintosamente yuppie, bastante agradável e bem humorado.
A publicidade não vende produtos nem ideias, mas um modelo falsificado e hipnótico de felicidade, em nome de um sonho burguês inacessível.
A publicidade não vende produtos nem ideias, mas um modelo falsificado e hipnótico de felicidade, em nome de um sonho burguês inacessível.
Os publicitários não cumprem a sua função: comunicar. Carecem de ousadia e de senso moral. Não refletem sobre o papel social, público e educativo da empresa que lhes confia um orçamento. A responsabilidade deles é imensa. Têm a incumbência de refletir sobre sobre a comunicação de uma marca, sem ficar apenas no puro marketing. Precisam impulsionar esse sistema publicitário que anda em círculos, incita a consumir cada vez mais e já não convence. A condição humana é inseparável do consumo; neste caso, por que a comunicação que o acompanha deveria ser superficial?
[Oliviero Toscani - recortes soltos do livro homônimo ao título do post]
___________________________________________________
___________________________________________________
O consumo, consciente - não este estereotipado, desenfreado, ao qual aludimos sempre que pensamos em consumo -, é uma prática de cidadania. Ao escolhermos tal produto ou rejeitarmos outro, de caso pensado, estamos exercendo nosso poder civil; estamos expondo nossos valores moral, social e mesmo político. Uma etiqueta no bolso da sua calça jeans não o torna uma pessoa melhor - exceto dentro de um grupo de seres supérfluos - . Uma marca estampada, em letras garrafais, no peito do seu agasalho só lhe garante pertencimento a um ciclo de amigos com senso crítico duvidoso, para dizer o mínimo. E você pode até amar, idolatrar, ou apenas usar para se sentir aceito, a GAP, mas é bom que você não ignore como e onde seus produtos são desumanamente fabricados. É indispensável que você saiba quais mãos de terceiro mundo produzem seus sensacionais tênis (e demais acessórios e roupas) da Nike. E eu realmente espero que você tenha ciência de que, para essas marcas, você não passa de um outdoor ambulante - que, não obstante, paga (caro) por isso.
Enfim, essa é a hora em que eu me dou um tapa e digo a mim mesma "vamos, Camila, não vá cagar nas calças de novo! Nada de trocar de curso mais uma vez, porra! Melhor que isso: empenhe-se em fazer diferente."
E, bem, se pensando (e vivendo) desse jeito, me rotulam/rotularem (urgh, como eu odeio esse treco) de "publicitária pé-sujo", que assim o seja! Antes isso a ser um "publicitário yuppie" alienado.
Enfim, essa é a hora em que eu me dou um tapa e digo a mim mesma "vamos, Camila, não vá cagar nas calças de novo! Nada de trocar de curso mais uma vez, porra! Melhor que isso: empenhe-se em fazer diferente."
E, bem, se pensando (e vivendo) desse jeito, me rotulam/rotularem (urgh, como eu odeio esse treco) de "publicitária pé-sujo", que assim o seja! Antes isso a ser um "publicitário yuppie" alienado.