"Nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível."
Roland Barthes

30 de setembro de 2011

A verdadeira intensidade não está relacionada à extravagância nem à vulgarização dos sentidos. Ser intenso é, muitas vezes, conter em si um sentimento que explodiria à primeira distração.

João admoestando Maria

- Maria, não me compare aos outros. Você brocharia irreparavelmente ao descobrir que eu nada tenho de especial.


João e Maria
João e Maria discutindo a relação
João e Maria quebrando o pau

29 de setembro de 2011

bem dosado

alguém que me inspire fogo, mas não expire ardores falaciosos.

17 de setembro de 2011

Quanto mais eu falo, menos de mim aparece.

Durante toda minha vida fui escrita em entrelinhas, evidenciadas por diferentes aspectos, com diferentes sentidos, conforme o gosto do leitor. Alguns elementos estão tão bem camuflados que nem os olhos mais obstinados e ardilosos conseguiram detectar. Então permanecem lá, emudecidos pela falta de percepção alheia.
Sou, confessadamente, simples e clara falta de objetividade. Sim, contraditória. Sempre. Aliás, neste mundo tudo é opaco. Não há clareza e tampouco simplicidade, ao passo que subjetividade tem um sentido demasiado abrangente, portanto incapaz de definir alguém.
Na esperança de domar esse silêncio selvagem que habita minha alma, minha carne e que comunica com um excesso nocivo – tendo em vista que ele é uma soma infindável de todos os dizeres – engendrei um mecanismo capcioso de medir e desmedir, refrear e desenfrear minhas palavras. Afinal, domesticá-lo foi o artifício que encontrei para encarcerar as verdades e inverdades que meu silêncio carrega acerca de mim mesma.

PS: Minhas entrelinhas são de pura blasfêmia contida em afáveis logorreias.

12 de setembro de 2011

Uma "menininha de 17 anos"

Foi assim, com algum escárnio, que a nomeei em pensamento. E depois achei graça ao me pegar lembrando dos meus 17 anos. De como eu me enxergava não como uma mulher feita, claro, mas como uma criatura que podia considerar-se já passada da fase de menininha, suficientemente crescida e capaz de mudar alguma coisa nesse mundo escatológico. Nem preciso dizer o quão ridícula me julgo hoje. Incrível como o tempo, paulatinamente, foi capaz de inocular tristes doses de pirronismo no meu coração. Depois dos 21, conseguir dar conta da própria vida importunando minimamente os outros é uma pretensão bastante razoável. Enfim, aquela menininha de olhos grandes e castanhos, cabelo preso à la Brigitte Bardot e uma presença absurdamente convidativa, vinha me dando nos nervos havia umas duas semanas. Nunca, nunca passava por mim sem me lançar aquele olhar, ao qual eu jamais conseguiria retribuir com a mesma lascívia. Nem que eu quisesse, nem mesmo se eu ensaiasse diariamente na frente do espelho. Juro, jamais vi nada parecido com aquilo. Era impossível disfarçar tanta volúpia embaixo da maquiagem preta. Principalmente porque, ao que me parece, nem era sua intenção fazê-lo. Passaram-se alguns dias depois que eu percebi suas más intenções, e tal insistência logo me fez sentir um comichão. Então era isso mesmo? Aquela “menininha de 17 anos” estava mesmo à minha espreita? “Muita petulância da parte dela” dizia meu comichão. Eu ria por dentro a cada olhar malicioso que ela me lançava, mas me mantinha completamente imutável por fora. Longe de mim permitir que ela, uma menininha de apenas 17 anos, soubesse que me fazia cócegas por telepatia. Ok, confesso que junto com as cócegas camufladas em indiferença havia também uma pergunta que eu sempre fazia em um silêncio cauteloso: Deus, por que o Senhor me fez tão hétero?