Foi assim, com algum escárnio, que a nomeei em pensamento. E depois achei graça ao me pegar lembrando dos meus 17 anos. De como eu me enxergava não como uma mulher feita, claro, mas como uma criatura que podia considerar-se já passada da fase de menininha, suficientemente crescida e capaz de mudar alguma coisa nesse mundo escatológico. Nem preciso dizer o quão ridícula me julgo hoje. Incrível como o tempo, paulatinamente, foi capaz de inocular tristes doses de pirronismo no meu coração. Depois dos 21, conseguir dar conta da própria vida importunando minimamente os outros é uma pretensão bastante razoável. Enfim, aquela menininha de olhos grandes e castanhos, cabelo preso à la Brigitte Bardot e uma presença absurdamente convidativa, vinha me dando nos nervos havia umas duas semanas. Nunca, nunca passava por mim sem me lançar aquele olhar, ao qual eu jamais conseguiria retribuir com a mesma lascívia. Nem que eu quisesse, nem mesmo se eu ensaiasse diariamente na frente do espelho. Juro, jamais vi nada parecido com aquilo. Era impossível disfarçar tanta volúpia embaixo da maquiagem preta. Principalmente porque, ao que me parece, nem era sua intenção fazê-lo. Passaram-se alguns dias depois que eu percebi suas más intenções, e tal insistência logo me fez sentir um comichão. Então era isso mesmo? Aquela “menininha de 17 anos” estava mesmo à minha espreita? “Muita petulância da parte dela” dizia meu comichão. Eu ria por dentro a cada olhar malicioso que ela me lançava, mas me mantinha completamente imutável por fora. Longe de mim permitir que ela, uma menininha de apenas 17 anos, soubesse que me fazia cócegas por telepatia. Ok, confesso que junto com as cócegas camufladas em indiferença havia também uma pergunta que eu sempre fazia em um silêncio cauteloso: Deus, por que o Senhor me fez tão hétero?
6 comentários:
Adorei o enredo. Sua narrativa me prendeu até o fim, além de que adorei suas construções de imagens. Parabéns! Fui mordida...
Estava com saudade da sua poesia (mesmo que ela esteja na sua prosa). Gosto das suas palavras.
Não fez hetero. Fez reprimida, né? Acho que entendi a mensagem. Me corrija se eu estiver errada.
Muacknhocclaptslept.
Reprimida? Será? Não sei.. sinto dúvida até sobre meus sentimentos e desejos.. haha vc me conhece! ;}
ótimo texto, parabéns
Laís Moura
Curioso como "a menininha de 17" fica um tanto quanto misturada a você mesma nesse texto...
Numa leitura mais atenta, a impressão é de que você lança um olhar sobre aquele "eu" lá do passado, seguido de uma relação quase "autofágica" com as próprias recordações.
Senti a coisa toda por aí... Achei muito bacana a construção.
Beijo grande!
=)
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