"Nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível."
Roland Barthes

1 de março de 2013

amor subnutrido

cultivo um amor subnutrido
sei de antemão que ele não vinga
é carente de afeto, apego, saudade e vitamina
não é à toa que, vez ou outra, cai de cama
febril, anêmico, desolado

cultivo um amor frágil da cabeça e fraco das pernas
esmorece à mais sutil intempérie
mas também não reclama, não chama,
não chora e não amola

é um amor para poucos
porque ele em si é muito pouco
não aceita ser dividido
não se multiplica nem por milagre

é um amor de barriga vazia e agenda cheia
tem uma fome atroz
fome de derrota, de tragédia, de drama
de copos defenestrados do sexto andar
fome que nunca sacia

coitado desse amor subnutrido,
que não ouso chamar de meu
deixo que seja sem dono
sem compromisso
assim não carrega o peso,
esse amor subnutrido,
o peso de girar o mundo por alguém,
de ser a felicidade e o martírio,
a agonia e o alívio,
o lívido e o libido

porque para o amor,
quando tratado como vira-lata de rua,
cão sem dono por nascimento,
não existem culpas ou culpados.
é só uma falta de expectativas,
de futuro, de abandono e de sofrer
falta de vitamina


18 de janeiro de 2013

Sutil como uma lambida no ouvido

Aproximou-se dele e desatou um sussurro mordaz: gosto quando você abana o rabinho, meu bem, mas gosto ainda mais quando o mete entre as pernas.


5 de outubro de 2012


Quem vota nulo são os insatisfeitos, não os preguiçosos.

Quem vota nulo são os que concordam que votar deveria ser uma obrigação, não uma imposição. São os que não apoiam nenhum dos candidatos nem suas mentiras pré-eleitorais, os que não elegem político por indicação ou eliminação, os que não se prestam a escolher "o menos pior".

Quem vota nulo simplesmente escolheu NÃO assinar embaixo por propostas incongruentes com os seus princípios ("um aluno, um tablet") e muito menos pelas que deixaram de ser feitas, mas, ainda assim, quem vota nulo continua pagando seus impostos e cumprindo seus deveres civis (inclusive o de ir a uma seção eleitoral em plena manhã de domingo).

É por isso que quem vota nulo PODE SIM exigir uma administração limpa e transparente, mais investimentos em educação, saúde e transporte públicos, estradas direitas, mais segurança e menos tributos, salários e preços justos. Quem vota nulo também tem o direito de sair às ruas e protestar contra ações fraudulentas do governo.

Então, por favor, não me venham com essa de que "quem vota nulo não pode reclamar depois e blá blá blá", porque quem vota nulo é só um cidadão que desliga a TV no horário político gratuito e caricato, mas não fecha os olhos para os problemas da comunidade ou do país.

Quem vota nulo não elege político nenhum, é verdade, mesmo assim paga o salário de todos eles.

18 de julho de 2012

Era noite, um inverno todo estrelado e eu havia me cansado de tudo. Estava prestes a me deitar quando resolvi me despir das minhas já tão puídas certezas. Foi como arrancar as últimas peças de roupa que ainda me restavam: um par de meias cinza que aquecia precariamente meus pés intrépidos no piso frio.

É bem verdade que certezas nos dão alguma sensação de segurança, mas elas não passam de molas enferrujadas incapazes de nos impulsionar para além do escopo da estagnação. E, diga-se de relance, é o que me estremece que me faz seguir em frente, é a dúvida que me faz querer "ver no que vai dar".

Mas pra quem acha que dúvidas são um problema na vida, respondo que sou exatamente do tipo que não procura solucionar problemas, apenas causá-los. Não só causá-los como também fazer parte deles. Tá aí o que mais me diverte: prefiro estar dentro do circo em chamas a me acomodar passiva do lado de fora vendo-o pegar fogo. O desfecho do espetáculo é a deixa para novos shows.

Assumo a partir de agora o posto de não estar posta. Quero mais é minha massa em movimento. Livre. Ossos expostos e alma à mostra. Fratura gritando em carne viva. Ligamentos rompidos em passos incertos. Eu quero contar das dores que me rasgam de dentro pra fora e perder a conta das cicatrizes que mantenho incólumes às vistas alheias.

E quando nem mesmo o piso frio me restar de chão, sorrirei docemente para o abismo que se abre sob mim e me salva da triste certeza de uma morte natural e insossa.

3 de julho de 2012

Fragmentou um dia em mil, somou tudo a uma centena de vidas e o resultado da saudade era isso: uma eternidade de horas que corriam, mas nunca chegavam ao segundo exato em que a língua e o falo de um adentravam simultaneamente o corpo e a alma do outro.

30 de setembro de 2011

A verdadeira intensidade não está relacionada à extravagância nem à vulgarização dos sentidos. Ser intenso é, muitas vezes, conter em si um sentimento que explodiria à primeira distração.

João admoestando Maria

- Maria, não me compare aos outros. Você brocharia irreparavelmente ao descobrir que eu nada tenho de especial.


João e Maria
João e Maria discutindo a relação
João e Maria quebrando o pau

29 de setembro de 2011

bem dosado

alguém que me inspire fogo, mas não expire ardores falaciosos.

17 de setembro de 2011

Quanto mais eu falo, menos de mim aparece.

Durante toda minha vida fui escrita em entrelinhas, evidenciadas por diferentes aspectos, com diferentes sentidos, conforme o gosto do leitor. Alguns elementos estão tão bem camuflados que nem os olhos mais obstinados e ardilosos conseguiram detectar. Então permanecem lá, emudecidos pela falta de percepção alheia.
Sou, confessadamente, simples e clara falta de objetividade. Sim, contraditória. Sempre. Aliás, neste mundo tudo é opaco. Não há clareza e tampouco simplicidade, ao passo que subjetividade tem um sentido demasiado abrangente, portanto incapaz de definir alguém.
Na esperança de domar esse silêncio selvagem que habita minha alma, minha carne e que comunica com um excesso nocivo – tendo em vista que ele é uma soma infindável de todos os dizeres – engendrei um mecanismo capcioso de medir e desmedir, refrear e desenfrear minhas palavras. Afinal, domesticá-lo foi o artifício que encontrei para encarcerar as verdades e inverdades que meu silêncio carrega acerca de mim mesma.

PS: Minhas entrelinhas são de pura blasfêmia contida em afáveis logorreias.

12 de setembro de 2011

Uma "menininha de 17 anos"

Foi assim, com algum escárnio, que a nomeei em pensamento. E depois achei graça ao me pegar lembrando dos meus 17 anos. De como eu me enxergava não como uma mulher feita, claro, mas como uma criatura que podia considerar-se já passada da fase de menininha, suficientemente crescida e capaz de mudar alguma coisa nesse mundo escatológico. Nem preciso dizer o quão ridícula me julgo hoje. Incrível como o tempo, paulatinamente, foi capaz de inocular tristes doses de pirronismo no meu coração. Depois dos 21, conseguir dar conta da própria vida importunando minimamente os outros é uma pretensão bastante razoável. Enfim, aquela menininha de olhos grandes e castanhos, cabelo preso à la Brigitte Bardot e uma presença absurdamente convidativa, vinha me dando nos nervos havia umas duas semanas. Nunca, nunca passava por mim sem me lançar aquele olhar, ao qual eu jamais conseguiria retribuir com a mesma lascívia. Nem que eu quisesse, nem mesmo se eu ensaiasse diariamente na frente do espelho. Juro, jamais vi nada parecido com aquilo. Era impossível disfarçar tanta volúpia embaixo da maquiagem preta. Principalmente porque, ao que me parece, nem era sua intenção fazê-lo. Passaram-se alguns dias depois que eu percebi suas más intenções, e tal insistência logo me fez sentir um comichão. Então era isso mesmo? Aquela “menininha de 17 anos” estava mesmo à minha espreita? “Muita petulância da parte dela” dizia meu comichão. Eu ria por dentro a cada olhar malicioso que ela me lançava, mas me mantinha completamente imutável por fora. Longe de mim permitir que ela, uma menininha de apenas 17 anos, soubesse que me fazia cócegas por telepatia. Ok, confesso que junto com as cócegas camufladas em indiferença havia também uma pergunta que eu sempre fazia em um silêncio cauteloso: Deus, por que o Senhor me fez tão hétero?

18 de junho de 2011

O gato comeu minha língua?

Personifiquei alguns de meus poemas
e acabei perdendo o fluxo das palavras
por tempo indeterminado.

Minha fluência agora é puramente tátil.

9 de junho de 2011

Resumindo

Cansei dos meus amores céticos.

1 de junho de 2011

Desforra

"Vamos, vamos!" disse-me um dia meu coração
e eu, contrariando-o, permaneci.
Estática.

Hoje, sou eu quem lhe diz "vamos, vamos"
mas ele, ressentido, permanece.
Letárgico.

14 de maio de 2011

era noite
não sei se estava dormindo ou culpada
remexia-se
e me empurrava
era noite
afastava-se de mim o quanto podia
eu não relutava
nem me afastava
era madrugada
e eu só a queria
amanhecida e redimida
mas ela, adormecida, apenas me ignorava

6 de maio de 2011

é incompreensível como as pessoas tomam atitudes que as direcionam exatamente aonde menos desejam.
e mais: essas contradições humanas às vezes me irritam um tanto, principalmente porque eu me reconheço nelas.