"Nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível."
Roland Barthes

5 de outubro de 2012


Quem vota nulo são os insatisfeitos, não os preguiçosos.

Quem vota nulo são os que concordam que votar deveria ser uma obrigação, não uma imposição. São os que não apoiam nenhum dos candidatos nem suas mentiras pré-eleitorais, os que não elegem político por indicação ou eliminação, os que não se prestam a escolher "o menos pior".

Quem vota nulo simplesmente escolheu NÃO assinar embaixo por propostas incongruentes com os seus princípios ("um aluno, um tablet") e muito menos pelas que deixaram de ser feitas, mas, ainda assim, quem vota nulo continua pagando seus impostos e cumprindo seus deveres civis (inclusive o de ir a uma seção eleitoral em plena manhã de domingo).

É por isso que quem vota nulo PODE SIM exigir uma administração limpa e transparente, mais investimentos em educação, saúde e transporte públicos, estradas direitas, mais segurança e menos tributos, salários e preços justos. Quem vota nulo também tem o direito de sair às ruas e protestar contra ações fraudulentas do governo.

Então, por favor, não me venham com essa de que "quem vota nulo não pode reclamar depois e blá blá blá", porque quem vota nulo é só um cidadão que desliga a TV no horário político gratuito e caricato, mas não fecha os olhos para os problemas da comunidade ou do país.

Quem vota nulo não elege político nenhum, é verdade, mesmo assim paga o salário de todos eles.

18 de julho de 2012

Era noite, um inverno todo estrelado e eu havia me cansado de tudo. Estava prestes a me deitar quando resolvi me despir das minhas já tão puídas certezas. Foi como arrancar as últimas peças de roupa que ainda me restavam: um par de meias cinza que aquecia precariamente meus pés intrépidos no piso frio.

É bem verdade que certezas nos dão alguma sensação de segurança, mas elas não passam de molas enferrujadas incapazes de nos impulsionar para além do escopo da estagnação. E, diga-se de relance, é o que me estremece que me faz seguir em frente, é a dúvida que me faz querer "ver no que vai dar".

Mas pra quem acha que dúvidas são um problema na vida, respondo que sou exatamente do tipo que não procura solucionar problemas, apenas causá-los. Não só causá-los como também fazer parte deles. Tá aí o que mais me diverte: prefiro estar dentro do circo em chamas a me acomodar passiva do lado de fora vendo-o pegar fogo. O desfecho do espetáculo é a deixa para novos shows.

Assumo a partir de agora o posto de não estar posta. Quero mais é minha massa em movimento. Livre. Ossos expostos e alma à mostra. Fratura gritando em carne viva. Ligamentos rompidos em passos incertos. Eu quero contar das dores que me rasgam de dentro pra fora e perder a conta das cicatrizes que mantenho incólumes às vistas alheias.

E quando nem mesmo o piso frio me restar de chão, sorrirei docemente para o abismo que se abre sob mim e me salva da triste certeza de uma morte natural e insossa.

3 de julho de 2012

Fragmentou um dia em mil, somou tudo a uma centena de vidas e o resultado da saudade era isso: uma eternidade de horas que corriam, mas nunca chegavam ao segundo exato em que a língua e o falo de um adentravam simultaneamente o corpo e a alma do outro.